Ricardo batia a cabeça na parede...
Pois estava começando a lembrar... Lembrar era a pior coisa que ele poderia fazer. Ele precisava de suas drogas; as drogas o acalmariam, fariam as coisas ficarem bem novamente. Desesperado, ele começou a gritar, passando a golpear a cabeça contra a alvenaria cada vez com mais força. Enquanto o sangue escorria por sua testa, ele rezava baixo, pedindo a Deus que o ajudasse.
Meio tonto, ele respirou fundo, levantou-se do chão e foi até a porta. Não havia ninguém ali. Fechou os olhos e começou a chorar. Odiava ficar sozinho. "Onde diabos estava Borges?" Era o que Ricardo se perguntava enquanto procurava uma solução para sua fobia. Pensar que, se não fosse por aquela janela aberta, ele não teria lembrado... Maldito Borges, deveria ter fechado essa merda.Essa era uma das condições que Ricardo tentava impor todos os dias: nunca se esquecer de fechar a maldita e desgraçada janela. Mas, naquela noite, demorou demais para que ele se lembrasse de que o perigo vinha com o vento. Agora era tarde demais; o monstro poderia aparecer a qualquer momento.Ricardo tentou fechar os olhos e dormir, mas não conseguiu. Depois, tentou bater a cabeça ainda mais forte na parede para se apagar de uma vez, mas falhou, e tudo o que sentiu foi dor e o vento frio batendo no vidro, como se algo quisesse entrar pela janela.
Havia algo maligno lá fora que não poderia ser visto, mas poderia ser sentido, e essa coisa está no vento... O verdadeiro perigo estava no vento...
De repente, em sua frente, ele viu Amanda. Sua mulher o encarava sorrindo, mas ela não tinha na face os belos olhos que um dia fizeram Ricardo se apaixonar. A Amanda que ele enxergava estava longe de ser o grande amor de sua vida; aquela era uma versão medonha, fruto dos seus mais macabros delírios.
O ser à sua frente tinha os olhos completamente negros, o corpo todo mutilado e um sorriso sinistro. Aquilo não era Amanda, e sim o pior pesadelo de Ricardo. O homem começou a chorar. Tudo indicava que o inferno estava prestes a começar. E iria começar sim.
Ricardo e Amanda moravam juntos há três anos quando se casaram, compraram um pequeno apartamento no centro de Curitiba e lá começaram outra vida. O relógio marcava 11 horas da noite e o casal estava se preparando para dormir. Com a cama pronta, os dois deitaram-se. Amanda não notou, e muito menos Ricardo, que a janela do quarto ficara aberta; a cortina cinza estava na frente, tampando a visão de ambos. O marido então abraçou a mulher, deu-lhe um beijo e disse que em breve esfriaria, por isso deveriam dormir abraçados.
Durante a madrugada, como acontece com casais, os dois se separaram na cama. Às três horas da manhã, Amanda acordou com sede. A moça levantou, foi até a cozinha e bebeu um copo de água. Voltou para a cama silenciosamente, com o intuito de não acordar o marido. Quando estava prestes a pegar no sono novamente, ouviu um estranho barulho, um som irritante e, ao mesmo tempo, assustador.
Curiosa, Amanda levantou-se outra vez e descobriu que aquele estranho ruído era o vento, que atingia a cortina do quarto e se dispersava pelo ambiente inteiro. Ela fechou a janela e voltou para a cama. No entanto, assim que se deitou, sentiu uma estranha dor na barriga. Alguns segundos se passaram e a dor excruciante se espalhou por todo o seu corpo.
Ela não aguentou mais e gritou. Gritou alto, acordando Ricardo. O homem despertou desesperado com os gritos da esposa.
- Ricardo, o que é isso?! Me ajuda, por favor! Tá doendo muito!
Ricardo tentou abraçar a esposa; foi a primeira coisa que veio à sua mente. Mas, ao tentar tocá-la, ele acabou sendo empurrado com uma força sobre-humana. Foi parar no chão, bateu a cabeça e um filete de sangue escorreu por sua testa. Os olhos da moça agora eram mais negros que a noite, um negrume podre, um negrume mórbido e diabólico.
- Meu amor, o que aconteceu? O que está acontecendo com você? — perguntou ele, apavorado.
A mulher sorriu, um sorriso insano, e de sua boca saíram palavras ditas com uma voz completamente diferente de tudo o que ele já tinha ouvido, fazendo os pelos da nuca de Ricardo se arrepiarem:
- Seu amor?... Então me ame, seu desgraçado!
O homem foi agarrado. O que a nova Amanda fez não foi simplesmente beijá-lo ou abraçá-lo, mas sim arrancar um pedaço de seus lábios com os dentes e cravar as unhas nas costas de Ricardo. Ele gritou de dor e pavor. O rapaz foi atirado mais uma vez ao chão, sem entender o que estava acontecendo. Na cama, a mulher ria e tremia, como se estivesse tendo uma convulsão. Uma espuma amarela saía de sua boca enquanto ela se contorcia em dores e cuspia palavras em um idioma desconhecido.
De repente, ela ficou quieta. Ricardo estava consumido pelo medo. Tudo aquilo o chocou o suficiente para saber que se tratava de algo sobrenatural. O homem, trêmulo, começou a rezar:
- Jesus Cristo, Pai amado, por favor, traga os seus anjos e queime esse demônio. Eu não sei o que é isso, meu Deus, mas não se afaste de mim, por favor. Fique ao meu lado nessa hora. Por favor, Jesus Cristo...
Enquanto o pobre Ricardo rezava desesperado, com seu rosto cheio de lagrimas de desespero, uma voz cavernosa ecoou do corpo de Amanda:
- Ele não está aqui. Jesus não está aqui. Apenas eu estou aqui. Sim, somente eu... Pazuzu. Sua esposa agora é minha. Você não sabe o tanto que eu vou me divertir com essa sua bela vagabunda, seu imundo.
O nome daquele demônio era Pazuzu, o senhor do vento. Antes de abandonar o corpo destroçado da mulher que torturara durante horas na frente do marido, ele fez questão de quebrar os braços de Ricardo. Depois, caminhou até a janela por onde havia entrado e se atirou com a moça já sem vida. Na queda de mais de 20 metros, Pazuzu abandonou o cadáver da garota, e seguiu livre com o vento noturno... levando-a junto a ele.
Desde então, aos anos se passaram... Ricardo demorou alguns anos para se recuperar fisicamente, mas sua mente estava destruída. A tragédia do apartamento 26 foi arquivada pela polícia do estado, tornando-se um dos casos que as autoridades nunca conseguiram resolver.
No presente, o enfermeiro Borges ouviu gritos ecoando pelo corredor do hospital. Só poderia ser o paciente do quarto 111. O louco aleijado que não conseguia dormir sem os remédios e que, acima de tudo, tinha um pavor mortal do vento. Borges sabia que, agora, fechar as janelas não bastariam para acalmar aquele homem.
O enfermeiro pegou alguns sedativos, preparou a seringa e foi fazer o seu trabalho. Ricardo ficaria dopado e dormiria, do mesmo modo que todos os outros internos daquele local. Ao chegar à cela, Borges viu o pobre homem chorando e sangrando, agarrando as grades da porta com a cabeça toda machucada pelos golpes na parede.
- Eu... falei... Eu falei... EU FALEI QUE O DEMÔNIO VINHA PELA JANELA! — soluçava Ricardo, desesperado. — Nunca se esqueça de fechar a maldita janela!
Um calafrio repentino percorreu a espinha de Borges por algum motivo, um calafrio frigido, que rastejava por todo o seu corpo. E aquela noite, ah... o vento daquela noite que parecia muito mais frio do que o normal... O Vento...
… O perigo está no vento ...
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> Autor Original: Carlos de Lira, infelizmente sua história sumiu da internet por volta de 2015 e 2016, intitulada como "O Vento"
> Creditos Secundarios: AmbuPlay (Eternizou a Historia) e Dr.Dream (Recuperou o Video do Ambu que havia sido deletado)

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